Home Data de criação : 08/04/10 Última atualização : 14/03/25 14:02 / 600 Artigos publicados

Cecilia Meireles

Recado Aos Amigos Distantes  (Cecilia Meireles) escrito em quinta 01 março 2012 19:23

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Meus companheiros amados, não vos espero nem chamo:  porque vou para outros lados.  Mas é certo que vos amo.  Nem sempre os que estão mais perto  fazem melhor companhia.  Mesmo com sol encoberto,  todos sabem quando é dia.  Pelo vosso campo imenso, vou cortando meus atalhos. Por vosso amor é que penso e me dou tantos trabalhos. Não condeneis, por enquanto, minha rebelde maneira. Para libertar-me tanto, fico vossa prisioneira. Por mais que longe pareça, ides na minha lembrança, ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança. (Cecilia Meireles)

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A Amiga Deixada  (Cecilia Meireles) escrito em quarta 20 julho 2011 07:31

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Antiga cantiga da amiga deixada.  Musgo da piscina, de uma água tão fina, sobre a qual se inclina a lua exilada.   Antiga cantiga da amiga chamada.  Chegara tão perto! Mas tinha, decerto, seu rosto encoberto... Cantava - mais nada.  Antiga cantiga da amiga chegada. Pérola caída na praia da vida: primeiro, perdida e depois - quebrada. Antiga cantiga da amiga calada. Partiu como vinha, leve, alta, sozinha, - giro de andorinha na mão da alvorada. Antiga cantiga da amiga deixada. (Cecilia Meireles)

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Depois Do Sol  (Cecilia Meireles) escrito em sábado 23 janeiro 2010 22:41

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Fez-se noite com tal mistério, Tâo sem rumor, tão devagar, Que o crepúsculo é como um luar iluminando um cemitério...  Tudo imóvel...  Serenidades...  Que tristeza, nos sonhos meus!  E quanto choro e quanto adeus  Neste mar de infelicidades!  Oh! Paisagens minhas de antanho...  Velhas, velhas... Nem vivem mais...  - As nuvens passam desiguais,  Com sonolência de rebanho...  Seres e coisas vão-se embora...  E, na auréola triste do luar,  Anda a lua, tão devagar, Que parece Nossa Senhora Pelos silêncios a sonhar... (Cecília Meireles)

Foto: Boituva/SP

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Ou Isto Ou Aquilo  (Cecilia Meireles) escrito em domingo 26 abril 2009 19:37

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Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva!  Ou se calça a luva e não se põe o anel,  ou se põe o anel e não se calça a luva!  Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .  e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.  (Cecília Meireles)

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Depois Do Carnaval  (Cecilia Meireles) escrito em terça 24 fevereiro 2009 22:38

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Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade. À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida. Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade? Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas. Neste país tão avançado e liberal — segundo dizem — há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios. Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos... Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...? "Ved de quán poco valor Son las cosas tras que andamosY corremos..." dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval... (Cecília Meireles)

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